Era para ser a manhã de um dia qualquer, de um campeonato
qualquer, de um rolê qualquer, de um rala qualquer. Mas a vida nos prega
infortúnios que não dá para explicar.
1º de maio de 1.994, me levanto com uma única coisa em
mente: o campeonato de downhill slide que ocorreria na Avenida Gustavo Adolfo,
ladeira que não chega a ser como a denominada “ladeira da morte”, mas que era
pura emoção e diversão. A subprefeitura do Tucuruvi permitia que a avenida
fosse fechada, carros, ônibus e motos tinham que transitar pelos arredores,
fugindo da avenida que seria a via dos “lokos”. Boné “Style” na cabeça,
camiseta da “Urgh” e uma calça de flanela quadriculada azul e uma camisa também
xadrez na cintura. Assim era a vestimenta. Além, óbvio do tênis Alva colado com
“silver tape” e uma carteira com duas correntes no bolso, de modo que as pontas
dessas ficassem presas ao passa cinto.
Moleque, diversão, carrinho.
'Pus me à rua”, remando, remando, remando. Um “ollie air”
(ollizinho) básico aqui, outro acolá. Uns flips até que já saiam e, as
inevitáveis, manobras de giro.
O sol brilhava, o dia seria promissor. Infelizmente o foco
não me deixava lembrar que era dia de fórmula 1, o último de uma corrida com
pilotos de verdade.
1994, ano no qual Sérvios, Croatas e Muçulmanos matavam-se
uns aos outros na despedaçada Iugoslávia, Ruanda vivia uma guerra não tão menos
sangrenta, Onetti, romancista das sombras da alma falecia, Mandela era votado
pelos Sul Africanos, a editora Progresso de Moscou que antes difundia as obras
de Marx e de Lênin, passava a publicar as Seleções do “Reader`s Digest”, e –
lamentavelmente – um dos maiores atletas do século sucumbiria com o testemunho
de um Mundo atônico, áfono, taciturno, choroso, quase depressivo.
O Skate estava em alta, fazia pouco tempo que o shape
havia evoluído, com um “Tail” e “nose” inclinados, de modo a proporcionar
manobras nas duas bases, invertidas ou não. As rodinhas da época eram
torneadas, pequenas, quase minúsculas, quanto menor a distância entre os
diâmetros da roda e do rolamento, era melhor.
O saudoso Indião estava presente, Yuppie também. Pessoal
da Tribo Skate estavam em seus lugares, prontos para registrar o evento.
A festa era plena, “lokos” varridos desciam a avenida no
gás, girando como se fossem piões, como se fossem a força centípeda existente
no mundo, “velô” total.
Não me lembro quem descia a ladeira no momento, mas
recordo-me perfeitamente do local onde estava, no meio da avenida, havia
superado a Rua da Grota, quando o locutor silenciou-se por um instante. A
microfonia surgiu no lugar da voz alegre e empolgada de seu possuidor.
Ato contínuo, a tristeza tomou o ar, sem que qualquer
palavra fosse dita, qualquer sílaba pronunciada, o ar parou, o vento, a vida
por um instante deixou de existir, as cores se apagaram, tudo ficou cinza e
negro. TODOS os sorrisos deram espaço para rostos aflitos e tristes.
O fato chegou antes do que a notícia.
Com o microfone nas mãos, o locutor pronuncia uma das
frases mais tristes que presenciei: “Ayrton Senna morreu. A Tomborelo lhe
retirou a vida.”
Era o fim.
As rodinhas não mais giravam. O asfalto não tinha contra
si, o poliuretano, o som do “carrinho” não mais tinha sentido. Skatistas no
chão, não por causa de uma queda, mas porque as pernas não tinham mais firmeza
para aguentar um corpo com coração
estacionado.
A tristeza era geral.
“Brow, que foda. O herói sucumbiu.”.
O Mito de verdade estava nos deixando. Adquirira asas e
iria voar ainda mais alto, na velocidade que nenhum outro homem poderia correr.
Que “Schummy” não poderia alcançar, nem mesmo com suas ajudas e trapaças.
Ninguém agora poderia negar, Senna não era um homem, sempre foi um anjo entre
nós. Aguerrido, soldado do bem, da paz e da motivação.
A terra ficou mais negra, o Skate mais triste, menos
radical. Não haviam mais forças para seguir em frente. A remada se tornou algo
intangível.
A lágrima caia sobre a lixa.
A tristeza foi total, não sendo dissipada nem mesmo com o
“Olê, olê, olê, olê, Senna, Senna”.
Nesse dia a bandeira brasileira deixou de ter 4 cores.
Ficará incolor.
Já se passaram mais do que duas décadas e não há no mundo
um herói como Senna.
Senna, o verdadeiro Mito.
Senna, o verdadeiro herói.
Senna, o imortal.
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